
Vovó no note
Estima-se que em 2020 serão cerca de 30 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil, totalizando 13% de toda a população no país. É um crescimento de cerca de 90%, segundo o IPEA. Se o mercado de web hoje não está preparado para essas pessoas, imagine daqui a alguns anos. Os quarentões e quarentonas que hoje estão por trás das máquinas, amanhã continuarão com os mesmos problemas de uso, caso quem faz a interface não tome providências urgentes.
E foi prestando atenção nisso que eu procurei um navegador especial para pessoas com experiência de uso diferente da minha. Meus pais, ambos com mais de 50 anos, tem muita dificuldade com os browsers. Minha mãe usa o google pra acessar qualquer endereço e meu pai precisa sempre de uma ajudinha quando quer entrar em um site. Pra eles, todo o menu do firefox poderia ser jogado fora, menos o fechar.
Minha experiência com design fica em segundo plano quando preciso resolver o problema de uma pessoa desse tipo. Acessibilidade, usabilidade, eye tracking, nada disso tem valor quando não existe cultura prévia de uso. De que adianta um botão para aumentar a letra se o usuário não sabe que pode aumentar a letra?
Não, eles não são velhos, nem são menos capazes. Apenas não nasceram rodeados de “play” e “pause” como eu e a maioria dos internéticos que conheço.
Principais problemas que pessoas com mais de 40 anos tem para navegar:
- Não são destemidos: quando precisam de algo, não tem iniciativa de procurar. “Fuçar” é algo da cultura da geração seguinte. Os quarentões procuram um técnico, porque era o que eles faziam quando a TV da sala quebrava;
- Não entendem a terminologia da web: download, ownar, voltar, login, salvar, slideshow, abas e tantas outras palavras tão comuns para eles significam algo a aprender, e não ações.
- As coisas não estão onde deveriam estar: pessoas que viveram 40 ou 50 anos pegando lápis e papel para controlar seus inputs não vão, de uma hora pra outra, adquirir cultura de tela só por estarem sentadas por detrás de um monitor vendo filmes no youtube. A tela, para eles, é como uma mesa grande e desarrumada, cheia de objetos insignificantes.
Claro que existem exceções. Tem sempre o cinquentão viciadinho que joga Resident Evil com o neto, ou a dona Maria, que acha as receitas no cybercook e marca salão via web. Mas e os 30 milhões? O que “os designers” faremos? A tarefa de trazer essas pessoas para a rede e desmistificar o uso da tela é todo do designer de interface. Paciência, curiosidade e método para ouvir e anotar as necessidades desses milhões de usuários cheios de potencial para consumir, comunicar e interagir na web são elementos chave para projetar para quem só entede a linguagem da TV.

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7 Comments
um navegador para eles é uma boa idéia. ou pelo menos uma skin…
na verdade, em conversas antigas lembro de falar que o computador, quando vc liga pela primeira vez, deveria mesmo falar contigo, te cumprimentar e fazer algumas perguntas: qual seu nome? de onde veio? quantos anos vc tem? do que gosta de fazer? já usou computador antes? quanto? e mais umas cinco perguntas…
com base nessas simples e fundamentais informações ele te geraria um login e configuraria seu ambiente de trabalho. Para os velhinhos, por exemplo, ele poderia configurar intruções simples, com botões grandes e perguntas diretas. Para o mais experiente, ele daria um ambiente com mais possibilidades e recursos cheios de menus e atalhos chiquérrimos.
mais importante ainda? o ambiente pode aprender contigo, e você com ele, assim os dois evoluem. Depois de um tempo, o computador pode automaticamente adicionar ou sugerir novas funcionalidades.
que tal?
Você tem toda razão, é responsabilidade de nós designer, seja de interface, interação, AI e TI, porque não.
Mas como você mesmo disse acima, a dificuldade deles não é somente no ambiente web em si, mas o computador. Do que adianta produzirmos interfaces de fácil uso se o usuário não consegue chegar até ela?
É um trabalho delicado que exije colaboração de todos os que influenciam e dita as regras tanto online quanto offline.
Parabéns pela matéria.
O problema na verdade é maior, já que muita gente por aí só sabe usar o Google para chegar em qualquer parte e é tão ignorante das funções de um navegador quanto qualquer 40 ou 50tão.
E como educar essa gurizada? Eu não faço ideia, mas é só entrar em uma lan para levar um susto com a incapacidade total dos adolescentes em usar um computador.
Até mesmo os que jogam direto só sabem fazer isso.
O meu avô gosta dos sites que eu faço!
Coloca uma janela com letras grandes perguntando se a pessoa tem alguma necessidade especial antes de abrir o browser.
Caso ela tenha, lança alguns tópicos configuráveis que quando clica muda de cor pra verde, sei lá…
Muito se fala de facilitar e etc, mas se continua vendo grandes empresas desenvolvendo full-flash e nem aí pra experiência do usuário.
Na real, eu acho que os navegadores precisam evoluir. O Chrome foi uma tentativa, mas o conceito é o mesmo. Essa idéia do Uirá é muito boa. O mais importante é diagnosticar esse problema para prevenir um futuro ainda pior do que o que existe hoje, em termos de experiência de uso.
Ei Yaso,
Você já ouviu (claro que já) da interface Sugar do OLPC? Acho que seria interessante algo do tipo. Acho uma pena o projeto ser tão deixado de lado.